POR DETRÁS DO ESPELHO

Lindalva era uma mulher debruçada em suas próprias amarguras, refutava quase tudo o que as pessoas achavam ou diziam. Para os outros, mantinha sua vida perfeita, tudo seu, era melhor, e nas vistas dos seus poucos amigos, ela sempre a desdenhar. Roupas caras, viagens, jóias e ostentações, todas essas parafernálias e ideários fúteis, eram mantidos pelo marido, um pobre romântico cego de amores. Desmedido e paciente, Pacífico fazia tudo que Lindalva queria, podia ser a mais simples coisa, a mais impossível, sempre na tentativa de vê-la completamente satisfeita. Em sua incompletude feminina, a mulher o rejeitava a cada mimo, e quase
nunca estava plena, ao contrário, sempre impaciente a reclamar da " pouca sorte que tinha", e o argumento era sempre o mesmo:
- Pacífico? Você me torra os miolos! Homem! Mas onde diabos você estava? Seu telefone do escritório está sempre desligado, por um acaso estava com alguma concubina de seu trabalho? Pois sei que nenhuma delas prestam! Se quiseres me deixar, assim o faça! Casei virgem, sou direita e fiel! e além do mais, botei 20 anos de minha vida fora, portanto, pague por eles! -
Pacífico baixava a cabeça, mas nunca a respondia, ao invés disso, abria-lhe um sorriso e dizia:
- Não há outra em minha vida, só você! Vida minha!.
Não bastasse toda a humilhação que passara durante todos esses longos anos, Pacífico a adornava a cada patada que levasse, embora julgasse feliz a vida que tinha ao lado de Lindalva, deixara pra trás alguns sonhos.
Certa manhã, ela estava mais uma vez a frente de seu espelho , falando com ele, talvez numa tentativa desvairada que alguém por detrás daquele objeto, ouvisse suas amarguras.
- Espelho! Que paguei caro, me digas? Alguém mais bela e insatisfeita do que eu ? nesse mundo de desventuras! Fale-me! Infame criatura! Só eu aqui a bradar e você ai repetindo meus gestos? - seu papel predileto era esse, imitar atrizes do teatro antigo, e delas, extraia sempre seus personagens, suas máscaras diárias, no desejado e intuitivo plano premeditado, mascarava sua real intenção, a de sempre! Conseguir o que pudesse ser melhor para si e pior para outros, outras, enfim...Na janela um vento frio, uma luz refletia na soleira, arrastando mobílias e cetins rosa da janela, de repente, o espelho e a sua imagem, começaram a falar juntos:
-Porque me insultas? Veja! Eu sou você! - Lindalva esfregou os olhos adormecidos, e naquele surpreendente encontro, começou a gritar desesperadamente: - Ahhh, estarei eu a ficar louca!! Quem es tu? O que pretendes? Por acaso estou ficando doente, vou prostra-me igualzinho a mamãe? Como pode? Saia daqui! Assombração do inferno!. - Não havia entendimento algum, entre o real e o imaginário naquele momento, e como uma peleja de palavras as duas imagens duelaram por
horas a fio. O reflexo então resolveu jogar as peças no tabuleiro, mostrando uma roleta russa, e mesas de carteado. Na intencionalidade infeliz de arrancar-lhe seus muitos personagens, saiu em disparada a gargalhar: - Ha ha ha...veja? Sou as variadas formas dos seus medos, de suas mentiras, cores de sua aura imunda, vertigem, o asco que tens de ti, mostro-te os amantes que escondes do teu tolo marido? ou teu mar de lama? O que desejares, mostrarei! Sua falsidade, o mal que te atormentas? ou e seu pouco caso pelos outros?veja!!! Vamos lá? Veja! quem você é na realidade - Mais risos, e para a surpresa de Lindalva, a imagem refletiu suas reais vestes de mendiga moribunda entregue a própria sorte, e ela já desesperada com aquela visão distorcida de si, lançou sua cartada final ao espelho:
- Tolo, e insolente! Essa não sou eu, vou te quebrar agora, e jogar os teus pedaços na calçada, como ousas me afrontar?
- Se quebrar-me, lançará toda a verdade para o mundo, e eles saberam o oculto...saberam de ti...lance meus pedaços ! Que lançarei os teus!
Fulminantemente, ela arremessa um jarro de flores mortas no espelho, e logo tudo o que havia em seu quarto, fora sugados pelo portal que se abrira. E  BOCAS falavam ao mesmo TEMPO, ao SOM de VENTOS e SUSSURROS...
- Estão a me perseguir, todos eles! Falam de mim a todo instante! São loucos! Porcos,
....invejosas!
Pacífico sem entender o porquê dos gritos ensandecidos da mulher, vai até o quarto e a encontra na cama gritando em meio a mais um de seus pesadelos.
- Querida, estou aqui, seu Pacífico! O que há contigo? Calma, minha flor, era somente um pesadelo que tivestes!
- Pacífico! Me abrace, apenas...me abrace.

E assim foram-se os dias. Diante de sua experiência consigo, ela continuou a fazer as mesmas coisas. O marido...bem, o mesmo inveterado romântico a endeusa-la...


E você, meu caro leitor, já conversou com seu espelho hoje?





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