"SÃOJORGIANO" - Na morada dos tolos
Diários dos anos 80 e 90 escrito por Adélia Carvalho.
Enfim, começou o dia, mas um dia de adolescente, um daqueles que poderia parecer comum, mas não!
Dia 24 de Setembro de 1988, dia de extremo calor, onde as areias misturavam-se ao asfalto, feito farofa com baião. Foi dai que tive a idéia, num belo final de tarde, caminhar pela praça do Liceu do Ceará, com destino ao Cemitério São João Batista. E quando lá cheguei, logo encontrei abrigo. Encostando uma das garrafas de vinho barato na lápide de um infante sem história, descansei o corpo, recostando minha cabeça "na Morada dos Tolos", e foi quando, quase de solavancos, no lampejo, festejando a entrada da lua, surge um clarão. Logo em seguida, ouço uma cançãozinha, daquelas que não sai da cabeça, por horas a fio, martelando, martelando...
Nela uma saudade de não sei o que, não sei de onde, e balõezinhos flutuantes rasgando a poeirinha do céu. Alguém, começa a cantar a mesma música. Num era ele? Minha gente! o São Jorge, aquele santo das missas e dos batuques, aparecendo pra mim, em pleno cemitério! Era um senhor de armadura imponente e cheio de idéias, sua lança era certeira, o olho apertado e deles saiam fumaças verdes. Não me assusto com visões, pois convivo com elas desde muito tempo, mas essa ! Rasgava minha alma, feito açoite de couro cru.
-"Vem cá! São Jorge deixe seu jubaio amuntado, deixa a lua de lado,
E vem cá para a sombra do meu rastro, pois quem te fala é teu ardor, rumbora logo! Desce desse alambrado!
Pra "rente" viver sem cor!"- brincando com a letra de Zé do Norte , cantada em verso por Raul, insultei o santo, mas ele só me respondia com a música, ora veja!
Nela uma saudade de não sei o que, não sei de onde, e balõezinhos flutuantes rasgando a poeirinha do céu. Alguém, começa a cantar a mesma música. Num era ele? Minha gente! o São Jorge, aquele santo das missas e dos batuques, aparecendo pra mim, em pleno cemitério! Era um senhor de armadura imponente e cheio de idéias, sua lança era certeira, o olho apertado e deles saiam fumaças verdes. Não me assusto com visões, pois convivo com elas desde muito tempo, mas essa ! Rasgava minha alma, feito açoite de couro cru.
-"Vem cá! São Jorge deixe seu jubaio amuntado, deixa a lua de lado,
E vem cá para a sombra do meu rastro, pois quem te fala é teu ardor, rumbora logo! Desce desse alambrado!
Pra "rente" viver sem cor!"- brincando com a letra de Zé do Norte , cantada em verso por Raul, insultei o santo, mas ele só me respondia com a música, ora veja!
- Tu vens? Já escuto os teus sinais!- citei mais uma letra de música, galopando nas palavras, em meio a risos e soluços, só pra chamá-lo pra perto de mim, e saber o gosto do calor que se sente ao engolir uma brasa.
Calor é coisa danada de boa,minha gente! só quando dá de baixo pra cima, e esse calor absurdo, a gente só sente, quando a paixão chega! -Me apaixonei pelo calor! - eu falei pro " Santo". Ele me respondera com a música, a mesma música que entoava na minha cabeça.
Calor é coisa danada de boa,minha gente! só quando dá de baixo pra cima, e esse calor absurdo, a gente só sente, quando a paixão chega! -Me apaixonei pelo calor! - eu falei pro " Santo". Ele me respondera com a música, a mesma música que entoava na minha cabeça.
- Seu Santo? Dizem que vossa mercê é Ogum? cavaleiro forjado no ferro, e ao mesmo tempo é santo da igreja? - Ele me respondera com a música. - Se tu es tão santo, como dizes, porque esse lastro de poeira e cinzas está saindo de sua cabeça? santos não tem desejos, santos são castos! São amordaçados a loucura do mundo, ou...tu, não es tão santo como dizes? De tua boca saem bravas palavras para outros, mas de tua mente ficam a desesperação de um homem, tão comum! Se tu és mesmo um santo, mostra-me um sinal?
Tantas outras perguntas sem resposta, somente a música.
Aquela prosa com a visão, estava ficando um monólogo, sem resposta, somente o tom da música dissonante saia do brado do santo, junto ao meu, numa peleja quase desleal.
Com o tempo, entendi o que a visão insistia em dizer-me, " Que a boca fala do que o pedaço de carne tá cheio".
Com o tempo, entendi o que a visão insistia em dizer-me, " Que a boca fala do que o pedaço de carne tá cheio".
E assim, os silêncios daquela conversa continuaram por longos anos.

Comentários
Postar um comentário